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Release/Histórico
Para o bem ou para o mal, não tinha como passar despercebido. Entre as bandas participantes do Festival Musicalango - Música, Diversão e Arte, em julho de 2003, uma delas fazia uma estréia digna de nota. Todos vestidos de branco, executando sólidos grooves em compassos de 7, 5 ou 11, criando o ambiente ideal para a desconcertante mise-en-scène de três atores-cantores - Melina Sales, Vânia Machado e Rochael Alcântara, o Gato, figura marcante do meio artístico brasiliense desde os anos 1980. Os três davam uma interpretação hipnótica a um texto musical intensamente fonético, com diálogos repletos de onomatopéia, em uma atuação corporal tão retorcida quanto a própria música - ou "como as árvores do cerrado", nas palavras de Rochael. Punham-se, assim, na linha de frente de um trabalho já então batizado como João Ninguém, de que faziam parte, além dos três já citados, Luciano Marques na bateria, Paula Zimbres no baixo e Fernando Almeida e Edson Martinez, ambos nas guitarras.
Dessa primeira apresentação, ficou a surpresa boa da seleção para a final junto com várias outras bandas com bem mais tempo de estrada, e a curiosidade despertada no público que por ali esteve. Desde então, o vermelho substituiu o branco, Rodrigo Bezerra assumiu a guitarra antes ocupada por Edson, um processo intenso de ensaios e criação apurou o resultado sonoro, e a curiosidade geral só fez crescer. E fez a presença do João Ninguém ser cada vez mais sentida, à medida em que ela se expandia para alguns dos mais importantes palcos da cidade: do Departamento de Música da UnB ao UK Brasil Pub; do SESC da 504 Sul ao Festival Porão do Rock; dos célebres saraus de Cristina Roberto à abertura da Mostra Novas Tendências, na Sala Plínio Marcos da Funarte.
Música esquisita, música torta, música que dá dor de cabeça, todas são qualificações que o João Ninguém assume voluntariamente. Da mesma forma, a desorientação dos que se esforçam por nomear o gênero a que o grupo pertence não perturba os membros da banda, que se orgulha de transitar incólume pelos territórios do rock, do atonalismo, do funk, do samba, do experimentalismo erudito do século XX, do jazz fusion, sem nunca fincar bandeira em lugar algum. Trata-se de um trabalho que remete à vanguarda paulistana oitentista de Arrigo Barnabé e do Grupo Rumo, que segue os traçados estruturais do rock progressivo, que pisa no chão firme dos grooves da black music, que salpica, como tempero, ritmos folclóricos e timbres eletroacústicos. Ao mesmo tempo, é música de todo dia, música de gente, música do trivial. O cotidiano urbano é a matéria-prima; o João Ninguém, a personagem.